PARTE 1 - Escada para lugar nenhum
(ENGLISH VERSION)
É curioso o funcionamento da memória, do consciente e do inconsciente.
Lá estava eu, olhando as próprias pernas curtas e pés
descalços bem distantes do chão, sentado em uma daquelas cadeiras
para bebês, daquelas usadas em restaurantes. Olhei adiante, percorrendo
o longo caminho de cerâmica branca até ela, que estava mexendo
em alguma coisa na pia. Difícil dizer o que sentia. Eram apenas eu,
a cadeira, o chão de cerâmica, a pia e ela. Obviamente, os nomes
das coisas eu soube depois.
Cresci um pouco, o bastante para andar e lá estava eu de novo, ziguezagueando
nas dobras de um cobertor com um trim, aquele treco que serve pra cortar unha.
Imaginava um carro na estrada. Talvez fosse apenas um exercício de
coordenação motora, afinal, nunca fui muito ligado em automóveis
e, era muito pequeno para entender sua utilidade ou o que eles representam
na sociedade moderna.
Mais tarde, controlando melhor as pernas, eu experimentava o gosto da liberdade.
Perambulava pelo meu "reino" carregando uma caixa de papelão
repleta de brinquedos. Carrinhos, homenzinhos e bichinhos de plástico,
legos e coisas (canetas, pedaços de madeira, colheres, fios, etc.)
que transformava, com minha grande imaginação, em brinquedos.
Gostava particularmente do conversível vermelho (desenvolvia grande
velocidade nas descidas), do touro de plástico (não era exatamente
um brinquedo e sim um enfeite de estante) e da galinha que botava ovos quando
pressionada contra o solo (esse brinquedo ainda existe).
Nos limites de minha propriedade ficavam a rua e o paredão da casa
vizinha. No corredor que vinha da rua, uma enorme ladeira cimentada de onde
largava todos os brinquedos com rodas. Ao lado, perto da entrada principal,
ficava a caixa de leitura de água. De cima dela eu ganhava a altura
necessária para olhar além do muro. Dali, espiava a rua e o
vai-e-vem de pessoas e carros.
Ficava eufórico quando ela me pedia para ir à padaria que ficava
na esquina. Ia sozinho comprar pães, leite e picolés. Era como
visitar um país vizinho, onde tudo é diferente daquilo que se
conhece. Com minhas pernas curtas, aqueles poucos metros se transformavam
em quilômetros. Isso tornava uma breve caminhada em uma longa jornada
mas, valia a pena. Eram bons o cheiro e o calor do pão fresco. Padaria
é um bom lugar. Isso me faz lembrar de uma história de Robert
Crumb onde ele fala das vantagens de ser um quadrinhista mas, isso fica pra
depois.
Encostado no paredão da casa vizinha, ficava o monte de areia. Areia
e criança são como queijo e goiabada, uma combinação
única. Quando o movimento na rua diminuía, era para lá
que eu ía.
Se ele ainda existe, é lá que estão muitos dos ovos da
galinha de brinquedo.
Falando em galinha, um dia passou na rua um velhinho que trocava garrafas
velhas por pintinhos. Esta foi uma experiência bastante traumática
mas não deixa de ser engraçada. Minha mãe juntou algumas
garrafas e conseguiu na troca uns 3 ou 4 pintinhos. Eles vieram em um saco
de pão todo furado para entrar ar. Talvez este tenha sido meu primeiro
contato com um bicho maior que uma barata. Estava tão ansioso para
brincar com eles, que virei o saco e todos saíram de lá correndo
e piando. Coisa típica de pintinhos. Assustado, eu pulava de lá
pra cá e, "sem querer", pisei neles. Dois morreram e, naquela
tarde, chorei muito.
Chorei também quando minha mãe novamente fez uma troca de garrafas
mas, desta vez, por um balão cheio de gás Hélio. Naquela
época, não sabia que o Hélio é mais leve que o
ar. A descoberta me custou o balão que subiu alto, e eu o acompanhei
até que sumisse de vista.
Certa vez, ganhei um par de sandálias Havaianas. Pequenas para pés
pequenos. Me senti com super-pés. O mesmo sentimento sempre acompanhava
um novo par de Kichutes. Resolvi testar a resistência da borracha pisando
em um prego enferrujado preso a uma tábua. Novas descobertas. Pisar
em pregos nunca é uma boa, pregos enferrujados podem causar tétano
e pra curar tétano precisa tomar injeção e, por último,
mas não menos importante, Havaianas não são tão
resistentes quanto parecem.
A locatária da casa onde morávamos se chamava Dulce. Ela morava
na casa de cima com sua amiga Gerusa. Dulce era uma negra muito bonita e me
tratava como filho. Me lembro que, na sala tinha uma foto dela em fantasia
de carnaval. Dulce me levava para comer pizza e, certa vez, me levou ao velório
de um artista famoso. Foi a primeira vez que vi uma pessoa morta.
Eu tinha um boneco do Homem-aranha com um barbante amarrado ao pulso. Deixava
ele pendurado na janela tentando assustar as pessoas que passavam na rua.
Na época de natal, passava na tv um desenho da Turma da Mônica
onde eles cantavam: "-Feliz natal pra todos, feliz natal!" Eu já
gostava de desenhos e tentava copiar os que via na tv.
No fim do dia, minha mãe me fazia juntar todos os brinquedos na caixa
e guardá-los na escada. Não, não debaixo da escada, e
sim, na escada. Ela ficava entre o quarto e a cozinha e subia em direção
a lugar nenhum. Acabava no teto. Hoje entendo que era assim porque, no passado,
Dulce usava o lugar onde morávamos como parte de sua casa.
Teve um dia em que dormi com a Gerusa e, no meio da noite, ela me acordou.
Então soube que minha mãe havia chegado. Fomos até o
portão e eu a vi descendo do carro com um roupão. Andava lentamente
como se carregasse um grande peso. Meu padrasto trazia algo no colo e, soube
depois que era minha irmã e que ela se chamava Ligia.
Tudo isso aconteceu há muito tempo atrás, e mesmo assim, ainda
está aqui. Não sei quem organiza esse arquivo, que critérios
segue para definir o que deve e porque deve ser arquivado. De qualquer forma,
está fazendo um bom trabalho. Só gostaria de saber quem é
o responsável pelos arquivos referentes a datas a serem lembradas,
como por exemplo, aniversários e feriados. Este precisa ser substituído
urgentemente. Ah, ele tem costas quentes. Então, tudo bem. Fica assim,
então...
PARTE
2 - Rei, roseiras e a zona proibida
Houve uma época em que eu era Rei. Entendem a importância de
um Rei? Tá, digamos então, o dono da Coca-Cola. Eu era o senhor
Coke e o mundo girava ao meu redor até a chegada da senhora Pepsi.
Ela não tinha mais que 3 quilos, chorava muito e, mesmo assim, era
concorrência forte naquelas bandas. Tínhamos saído da
mesma fábrica mas éramos bem diferentes, meus olhos eram puxados
e os dela, não. Eu entendia, é claro, que aquela era minha irmã,
filha de meu padrasto.
Certa vez, eu estava ao lado do berço e ela começou a chorar.
Queria fazê-la parar. Talvez algo estivesse doendo, eu pensava. Então,
descobri que soprando no rosto dela, ela parava. Fiz isso outras vezes, até
o dia em que minha mãe me viu fazendo-a "parar de chorar".
Tomei uma bronca e entendi que ela não parava de chorar e sim, de respirar.
O meu canto de dormir ficava debaixo de uma escada e tinha uma pequena janela
acima da cama. Através dela, dava pra ver a rampa de onde eu largava
o conversível vermelho. Teve um dia em que fiquei doente e vomitei
a noite inteira. Como eu mal conseguia ficar de pé, fiz uma espécie
de cuia com o cobertor e vomitava ali mesmo, deitado.
Nos mudamos de casa, mas continuamos na Vila Mariana. Isso aconteceu entre
o meu quinto e sexto ano de vida. Antes disso, dos 2 aos 4 anos, morei com
meus avós, num bairro da periferia chamado Jardim Boa Vista. Quando
nasci, minha mãe trabalhava como doméstica e meus avós
ainda moravam em Minas. Quando vieram para São Paulo, minha mãe
e eu fomos morar com eles. Foi nessa época que aprendi a chamar minha
mãe pelo nome e meus avós por mãe e pai. Talvez por que
escutava todos a chamando de Selma e meus avós de mãe e pai.
Isso não mudou até hoje. Criança esperta eu era, não?
Naquele terreno estreito e comprido no Jardim Boa Vista, meus tios construíram
pequenas casas ao lado da casa de meus "pais-avós". Todos
viviam praticamente no mesmo quintal. Na frente do terreno não havia
nada além de um matagal e um caminho no meio dele. Como já disse,
minha mãe era doméstica e eu ficava aos cuidados de tios, tias
e avós. Meu avô se chamava Hélio e era sapateiro. Um homem
alto, forte e brincalhão. Toda a família de minha mãe
(uma família imensa) veio de Minas Gerais, de uma cidadezinha chamada
Montes Claros. Trouxeram de lá, costumes, histórias duvidosas
e culinária típica. No quintal, meu avô plantava milho,
cana, jurubeba, café, coloral (também conhecido como urucum)
e retirávamos água de um poço. Tínhamos dois pés
de goiaba e, em um deles, um balanço. É curioso como árvores
costumam fazer parte das lembranças de quase todos, principalmente
as que dão frutos. Nos fins de tarde, meu avô enrolava seu cigarro
de fumo de corda sentado no banco de madeira que ficava no quintal. Tínhamos
um cão chamado Roche e, certa vez, fui todo picado por formigas. Dessa
época, me lembro de pouco além disso.
Voltando à Vila Mariana, agora morávamos na Rua Izar. A casa
era maior e não inundava nas épocas de chuva. Lá estávamos
eu, Selma, meu padrasto e a senhora Pepsi. A locatária novamente morava
na casa de cima, mas ela não era como Dulce. Seu nome era Isabel e
era uma senhora de idade que não gostava de crianças brincando
entre suas roseiras. Ok, admito que as brincadeiras, vez ou outra, arrancavam
algumas pétalas e galhos mas era só isso. A neta de dona Isabel
se chamava Kátia e estava sempre por lá. Jane, a vizinha, tinha
dois filhos, Ricardo e Rosana. O muro que dividia os terrenos era baixo e
estávamos sempre de lá para cá, vivendo como crianças,
atravessando o jardim de roseiras.
Aliás, falando em jardim, no fundo dele ficava a zona proibida. Lá,
dizia Dona Isabel, ficava um antigo poço e era perigoso chegar perto.
Isso para uma criança significa: "-Vá até lá!".
Mesmo assim, nunca me aproximei do poço. Ei! Será que isso não
era um truque só para nos afastar de suas roseiras? Putz! Nunca tinha
pensado nisso.
Engraçado e, por que não dizer, lógico, como tudo é
enorme quando somos pequenos. Visitei aquela mesma casa, aquele jardim, muito
tempo depois, e ele não me pareceu tão grande.
Rosana, Kátia e eu éramos inseparáveis. Elas brigavam
de vez em quando. Kátia tinha um pouco de ciúmes e uma natureza
forte. Ricardo, o irmão de Rosana, tinha uma coleção
de chaveiros e outra de carrinhos de ferro. Ele era mais velho e já
estava na escola. Mesmo assim, brincava conosco, já que a diferença
de idade nem era tanta.
Grandes mudanças chegaram nessa época. Rosana, Kátia
e eu fomos matriculados no pré-escolar e, em breve, iríamos
começar nosso caminho rumo ao conhecimento e a novas experiências.
Mas, isso faz parte de outro cenário, repleto de novos eventos, personagens
e sentimentos.
Parte
3 - Banheiro das meninas e a raiz da árvore
Rua
Izar, Vila Mariana. O meu padrasto trabalhava na Avenida Domingos de Moraes,
em um restaurante chamado Che-la-la. Ficava próximo de casa. O colégio
onde eu iria começar meus estudos se chamava Lasar Segal. Fiquei sabendo
depois, bem depois, que esse era o nome de um artista.
No pré-primário, usávamos um uniforme vermelho. Não
me lembro de como foi o primeiro dia de aula. Novamente, a memória
seleciona lembranças seguindo um critério que não compreendo.
Lembro nitidamente do dia em que, durante o recreio, cortamos o rabo de uma
lagartixa. Um menino disse que ela não morreria e que nasceria outro
rabo. O que cortamos ficou lá, se debatendo como se estivesse vivo,
como se dele pudesse crescer outro corpo. No dia seguinte encontramos a lagartixa
morta. Ainda sobre o recreio, sabe aquela lancheira onde o copo com tampa
de rosca fica sobrando uma parte para cima? Era uma dessas que eu tinha. Nela
eu levava suco ou chocolate, ambos quentes e, para comer, Ana Maria, bolo
mesclado, sanduíche de amendocrem ou aquela pasta de chocolate e creme.
Seja na faculdade ou no prézinho, intervalos são momentos onde
vivemos experiências memoráveis.
A sala de aula do pré-escolar não possuía mesas individuais,
e sim, aquelas para 5 ou 6 pessoas. Acho que isso serve para promover a interação
do grupo. No meu caso deu certo. Nas reuniões de pais e mestres minha
mãe sempre ouvia reclamações sobre o fato de eu falar
demais.
Certa vez, eu e um amigo de mesa brincávamos com nossas tesouras sem
ponta. Duelávamos como espadachins e, sem querer, cortei seu dedo.
Minha mãe foi chamada à escola e fiquei suspenso por alguns
dias. Dizer que foi sem querer não foi o suficiente. Descobri que,
nem sempre o que sentimos ou o que temos a dizer alivia o peso de nossas ações.
Eu disse em outra ocasião que, falar para uma criança que ali
não pode é como dizer vá até lá.
Naquele dia, estávamos na área dos brinquedos. Gangorra, balanço,
trepador. Eles ficavam em um cercado repleto de areia. Os banheiros ficavam
próximos dali e eu estava apertado. A professora, aquela que chamamos
de tia, ficou com os outros e fui sozinho aliviar a bexiga. Quando estava
saindo, ouvi vozes que vinham do corredor ao lado. O banheiro das meninas,
o local proibido. Para impedir que se veja algo do lado de fora, o caminho
que leva aos vasos sanitários faz um zigue-zague, você sabe.
E lá fui eu, pé ante pé, tentando me aproximar das vozes
e pensando: "-como será lá dentro? O que fazem as meninas
lá? Como fazem?" Não descobri muito. Assim que botei minha
cabeça na última esquina uma menina gritou: "-Rogério,
eu vou contar pra tia! Tiiiiiiia!" Novamente levei bronca e um bilhete
para casa destinado a minha mãe. Já dizia o ditado: a curiosidade
matou o gato.
Eu era um menino cheio de iniciativas, é o que penso hoje. Jane, a
mãe de Rosana, revesava com minha mãe a tarefa de nos buscar
no colégio. O ponto de encontro era sempre o mesmo, debaixo da mesma
árvore com raízes para fora da calçada. Naquele dia,
eu atravessei a rua, contornei a tal árvore e nada. Jane não
estava lá, porém, eu sabia o caminho de volta. O colégio
e a minha casa ficavam em lados opostos da Av. Domingos de Moraes. Uns vinte
minutos de caminhada. Me lembro de pouca coisa dessa jornada. A única
lembrança que tenho é a de parar em uma banca para olhar as
revistas. Se esperei na faixa ou se esperei que carros parassem, não
lembro. Cheguei em casa como sempre. Larguei as coisas da escola e fui brincar.
Minha mãe preparava o almoço. Pouco depois, Jane chegou desesperada
querendo saber o que tinha acontecido. Elas conversaram e levei mais uma bronca.
Provavelmente, naquele dia, confundi as árvores já que quase
todas tinham raízes para fora. Após o ocorrido, passaram a nos
esperar no portão da escola.
Minha mãe tinha algum problema que a fazia perder o controle com facilidade.
Tomava calmantes e ía sempre ao médico. Nessa época,
levei muitas surras e fiquei muitas vezes de castigo, trancado no banheiro
sem poder acender a luz. Eu tenho uma lembrança muito nítida
de estar caído no chão com minha mãe sobre mim, com o
rosto desfigurado por uma raiva que eu não entendia de onde vinha.
A mão segurando o cinto subia e descia e eu reparava mais em seus olhos
do que na dor que sentia.
Ela sempre chorava muito depois que me batia. Novamente, eu ficava sem entender.
Um dia, ela decidiu por conta própria, parar de tomar os calmantes
e as surras acabaram. Hoje, vendo isso de tão longe, sou capaz de entender
muitas coisas. Entendo que, muitos caminhos que segui estão relacionados
com o passado, com o que tive e o que não tive, mas que isso não
determina os meus próximos passos e não os justificam. Entender
requer esforço e, nesse caso, certa dose de sofrimento.
Parte
4 - Redemoinhos e noites chuvosas
No
colégio Lasar Segal, fiz o pré e os 2 primeiros anos do primário.
Continuava falando mais do que a boca e sendo muito citado nas reuniões
de pais e mestres. O que eu tanto conversava, não faço idéia.
Boa parte dos alunos do pré se reencontraram nas salas do primeiro
grau, agora em cadeiras individuais. Eu me sentava perto da janela e estava
ao lado de "velhos" amigos. Bons motivos para uma boa prosa. Apesar
disso, minhas notas eram boas, exceto as de matemática. Nunca fui bem
nessa matéria. Um vez por semana, tínhamos aula de religião.
Uma professora levava a bíblia e alguns desenhos recortados que ela
pregava na lousa. Representavam alguns personagens das histórias que
contava. Minha família é de formação católica.
Tanto na escola quanto em casa, me ensinaram que todos temos 2 pais, um na
Terra e outro no Céu. Comigo parecia ser diferente. Meu pai biológico
separou-se de minha mãe pouco após meu nascimento. Ela se casou
novamente quando eu tinha 3 ou 4 anos. Logo, vieram meus irmãos e uma
diferença se tornou nítida. O que eu estava fazendo com meus
olhos puxados e cabelo escorrido em uma família onde ninguém
possuía essas características? "-Ele não é
seu pai verdadeiro mas é seu pai." Então eu tinha dois.
Tinha também o meu avô que chamava de pai e Deus que é
pai de todos. Somando tudo, eram 3 pais na Terra e um no Céu. Total
de 4. Se não fosse tão confuso eu entenderia como sorte.
No terceiro ano do primário, nos mudamos para o Jardim Boa Vista. Morávamos
próximos à casa de minha avó em uma casa alugada. Naquela
época, o bairro tinha baixa densidade demográfica. Uma casa
ali, outra acolá. Grandes áreas de matagal cortados por caminhos
estreitos de terra. O colégio que eu iria freqüentar se chamava
Graciliano Ramos. Estudava no período da tarde, então, passava
as manhãs vendo desenhos na TV. Pica-pau, Tom e Jerry, Pinóquio
(não o da Disney, o mangá), Herculóides, Fantomas, Spectreman,
Ultraman, etc.. Para não me atrasar para a aula, almoçava mais
cedo que o normal. Certa vez, chegando à escola, vi um redemoinho enorme
perto do pátio. Levantava folhas, muito pó e despenteava os
cabelos. Muito bonito. Sobre esse colégio, nada além disso ficou
registrado. Um dia, voltando da aula, cheguei em casa e encontrei um caminhão
na cozinha. O vizinho o deixava sempre estacionado em uma ladeira que descia
em direção à minha casa. Nesse dia, ele perdeu o freio.
A parede estava aberta e, na mesa onde fazíamos as refeições,
estavam os tijolos. Soube que o acidente havia ocorrido pouco depois do meu
horário de almoço.
Acho que tive sorte.
A casa ficava próxima à uma área com muitas árvores
e folhagem alta. O banheiro ficava do lado de fora. Existe algo mais assustador
que vento soprando forte em árvores que projetam sombras fantasmagóricas
em noite de lua cheia? Sim, existe! Acrescente um gato no cio e uma enorme
vontade de ir ao banheiro a este cenário. Se eu fui ao banheiro? Sim,
a necessidade falou mais alto.
Certa noite, a luz acabou. Eu dormia na sala enquanto minha irmã e
meu irmão que ainda era de berço, dormiam com minha mãe
no quarto. No meio da noite, ela me chamou, me entregou uma vela acesa presa
a um prato e me pediu para verificar na cozinha se a luz havia voltado. Eram
poucos passos até lá. Uma eternidade para uma criança
assustada. Coloquei a vela na mesa e me virei para a parede. Cliquei uma,
duas vezes. Nada. Me virei novamente para apanhar a vela e senti um calafrio.
Ela estava caída, queimando a toalha da mesa e, ainda presa ao prato.
Era como se alguém a tivesse colocado naquela posição.
Coisas estranhas aconteciam naquela casa. Se eram sobrenaturais, eu não
sei, mas que eram de arrepiar os cabelos, eram.
Meu tio Helivaldo era o mais novo dos irmãos de minha mãe e
gostava de brincar com os sobrinhos. As irmãs dele o chamavam de Liu.
Outra daquelas noites sem luz e, meus primos e eu iríamos dormir na
casa de minha avó. Chovia lá fora. Um pouco dentro também.
Liu contava histórias sobre fantasmas para nos assustar e, estava conseguindo.
Já era hora de dormir. Ele se despediu e saiu levando a vela. Ficamos
olhando em volta, procurando algo que não estava lá. Pouco depois,
uma sombra deslizava pela parede vindo em nossa direção. Então,
surgiu na porta uma figura alta, coberta com um pano branco e segurando uma
vela abaixo do queixo. O rosto era negro e a luz da vela desfigurava suas
formas. Depois de gritarmos muito e nos espremermos uns aos outros e contra
a parede, ela, a figura assustadora, começou a rir. Era Liu com uma
toalha sobre a cabeça e borra de café espalhada no rosto.
Eu chamo isso de brincadeira de mau gosto. Ele, porém, riu até
cansar e isso demorou bastante.
Naquela casa do Jardim Boa Vista, adquiri o costume de dormir com a cabeça
coberta deixando apenas uma fresta para a entrada de ar e observação.
Durante muito tempo tive medo do escuro.
Hoje, quando escuto algum barulho, torço para que seja alguém
que já está morto, e não alguém vivo disposto
a me transformar em um fantasma.
Parte
5 - Pingado, misto-quente e Cristiane Torloni
Meu avô dizia baixinho: "-Jade. Jade, acorda! Tá na hora
de ir pra banca! Eu acordava de imediato como se aquele fosse o meu nome.
O próprio, porém, se virava de lado e resmungava alguma coisa.
Meu avô voltava mais uma, duas vezes até estar certo de tê-lo
acordado. Eu já estava pronto quando ele ficava de pé.
Meu tio Jade (sim, um homem) era dono de uma banca no Caxingui e, aos Domingos,
me levava com ele para que eu ajudasse na montagem dos jornais. A banca ficava
em frente a uma padaria e, assim que chegávamos fazíamos nossa
refeição matutina. Pingado e misto-quente. Até hoje não
comi um misto melhor do que aquele. O queijo escorria pelos cantos do pão
fresco e o presunto era crocante nas bordas.
Depois de alimentados, montávamos os jornais e eu ficava sem nada para
fazer no resto do dia além de consumir refrescos, mistos e ler os gibis.
Me sentava no degrau da padaria e só me levantava para pegar outra
revista. Riquinho, Gasparzinho e toda a Turma da Mônica. Lia todos praticamente
no mesmo dia.
Percebendo meu interesse pelos gibis, meu tio passou a me presentear de vez
em quando com alguns. Foi o início de uma relação de
amor com as HQs. Vício, talvez. Aquela coisa: a primeira é de
graça.
Agora, eu fazia tudo sempre acompanhado de um caderno de desenhos e gibis.
Via TV, comia, estudava, etc.. Às vezes, tudo isso junto. Certa vez,
meu tio José me viu em comendo, vendo TV e desenhando e achou graça.
Contou para toda a família.
Teve um dia que minha mãe me pediu para ir à venda comprar leite.
Era noite. Chegando lá, pedi o leite e enquanto esperava que a esposa
do dono do bar buscasse, fiquei olhando o globo de doces. Aqueles giratórios,
de vidro com tampas de rosca. Alguma coisa estava acontecendo ali e eu não
tinha idéia do que fosse. De repente, um dos potes do globo estourou.
Me virei e vi o dono do bar reagindo ao bandido e levando um tiro. Sua esposa
estava na minha frente, e o tiro no globo tinha sido destinado a ela mas não
acertou. Saí correndo de lá.
O bar ficava em uma rua em declive, uma ladeira. Isso fazia da calçada
um sobe-e-desce contínuo. O bar era sobe e o lado para onde corri era
desce. Caí de uma grande altura e bati com a cabeça. Em casa,
depois de responder a algumas perguntas, todos foram correndo para a calçada.
Minha cabeça doía muito mas eu ía sobreviver. Felizmente,
o dono do bar também.
Outro Domingo na banca. Nesse dia, meu tio precisava buscar revistas na distribuidora
e me deixou sozinho por algumas horas. Me disse que eu cuidaria da banca.
Os funcionários da padaria ficariam de olho para resolver qualquer
problema. Naquele dia, sentado no lugar de meu tio, reparei pela primeira
vez em uma revista que ficava longe dos gibis. Na capa, uma mulher linda,
de cabelos negros e cacheados engatinhava como um felino. Aquela boca vermelha,
úmida e entreaberta provocou em mim um "formigamento" estranho.
Em letras também vermelhas estava escrito Playboy e Cristiane Torloni.
Não era a primeira vez que eu sentia aquilo mas, a partir dali, ficou
mais fácil entender porque a lembrança dos banhos com minhas
tias são tão boas.
Fora isso, eu continuava de lá pra cá, no quintal de meus avós,
cuidando dos meus negócios. Negócios de criança.
FRAGMENTOS
Parte 6 - O quintal
O
jardim Boa Vista faz divisa com Osasco e fica em um terreno bastante irregular.
As ruas sobem e descem por toda a região. É um bairro relativamente
pequeno e de gente humilde. Assim como era meu avô somente no que se
refere ao humilde porque ele era um sujeito grande e forte. Ele tinha uma
sapataria que ainda hoje está lá, servindo para outras coisas.
É como tinha que ser.
Quando morávamos lá, não havia muitas casas. Minha lembrança
mais nítida de quando nos mudamos era de um lugar que eu via na linha
do horizonte. Tinha uma árvore e o sol se deitava atrás dela.
Tem uma foto em frente a minha prancheta que mostra meus irmãos e eu
no jardim Boa Vista. Eu, o mais velho, minha irmã e meu irmão
formando uma escadinha. Parecia um sítio com nada ao redor.
Meu avô, como homem da roça que era, gostava de plantar, consertar
coisas, contar piadas aos netos, criar cães, reunir a família.
Morávamos em uma casa que ficava bem no meio de um terreno comprido,
estreito e em declive.
Alguns dos muitos filhos de meus avós moravam com eles. Tias Juci,
Néia, Jane, Dirce e tios Jade e Elivaldo. Outros moravam no mesmo terreno.
Tio José, na parte de cima. Tia Maria, logo abaixo de meus avós.
Na parte mais baixa, meu tio Lindomar. Tia Malvina e minha mãe moravam
em outros bairros porque já eram casadas. Eram as mais velhas e tinham
sido as primeiras a vir para São Paulo junto com tio José.
Tinhamos as casas no canto direito e um corredor com goiabeiras, coloral,
café, milho, jurubeba e lá no fim do terreno o que eu mais gostava.
Cana de açúcar.
Meu avô sempre partia algumas e as descascava e, depois, partindo os
gomos em quatro, distribuía para os netos. Tinha também um poço
em frente da casa principal, a de meus avós.
Gostava particularmente da goiabeira e do balanço que ficava pendurado
em um dos galhos.
Se existe uma criança que não gosta de trepar em árvores,
ela não é desse mundo ou não teve uma por perto na infância.
Certa vez, meu avô matou uma cobra. Parecia uma coral mas podia ser
falsa. Como eu ia saber?
Estava perto e vi quando ele cortou a cabeça dela com uma pá.
O corpo contorceu por um tempo e depois parou. Achei que meu avô teve
muita coragem e fiquei orgulhoso de ser neto dele.
Teve o dia em que ganhei uma pipa (ou papagaio) de meu tio Helivaldo. Ele
botou a pipa no ar e me deu a lata de linha. Tava me ensinando a desbicar,
fazer a pipa dar guinadas no ar.
Outras pipas se aproximaram da minha. Pensei que a minha dizia: "-Olá,
amigo. Como vai?"
Então, uma delas veio rápido e cruzou as linhas e a minha foi
cortada pelo cerol (mistura de cola e vidro destinada a cortar especificamente
linhas de pipa, mas também cortam pescoços).
Depois disso, nunca mais tive uma pipa. Aliás, odeio pipas.
Minha tia Maria, casada com meu tio José, morreu nessa época.
Tinha doença de Chagas.
Aquela do besouro, sabem? Pois é, quase ninguém morre disso
hoje em dia.
Dizem que ela morreu na porta de casa chegando da venda. Alguém chamou
do alto da casa, ela olhou pra cima e morreu ali mesmo.
Era bonita a tia Maria. Minha mãe e todos da família gostavam
muito dela e meu tio José mais ainda.
Tinha olhos azuis e meu tio olhos verdes. Do casamento, nasceu a Flávia,
minha prima. Ela vivia dizendo que seus olhos eram azuis. Gostava do azul.
Cismou com azul. Na verdade eram verdes.
No velório, que foi na casa mesmo, todos choravam muito, exceto as
crianças. Minha avó precisou de calmantes e tudo.
Me lembro de estar no balanço da goiabeira e ver as luzes acesas na
casa de meu tio José e muito entra e sai. Eram as únicas luzes
acesas no quintal.
Fui até lá e vi o caixão e uma coroa de flores acima
dele. Cheguei perto e vi tia Maria deitada com as mãos sobre o peito.
Não senti nada, mas achei que devia porque todos estavam sentindo algo
e paracia doer muito.
Teve uma festa, certa vez. Não lembro o que comemorávamos. Acho
que era casamento de um de meus tios. Tinha muita comida e aqueles barris
metálicos de chopp. Algum engraçadinho achou graça em
dar bebida para uma criança e fiquei completamente bêbado. Cambaleando,
andei pela trilha no matagal e vi a casa de longe. Nem é preciso dizer
que minha mãe ficou uma arara, como se dizia na época.
Da mesma trilha no matagal eu via a casa de longe, de frente. Roche, o cão
da família, as vezes comigo. Lá eu fiquei quando meu avô
resolveu cozinhar um tatú. Como cheirava mal aquela coisa. Em compensação,
o aroma do bife frito que minha avó preparava para o meu avô
era maravilhoso. Ele gostava de bem, muito bem passado. De tão duro,
ficava quase quebradiço. Era preciso uma boa faca e dentes fortes para
entrar numas com aqueles bifes.
Bem, depois do acidente com o caminhão que entrou na minha casa, nos
mudamos para um quarto na casa de meus avós. Ficamos um tempo por lá
e, em 1980 nos mudamos para o Jardim Raposo Tavares, quilômetro 15 da
rodovia. Agora éramos cinco. Selma, Luís, Ligia, André
e eu.
Estávamos começando mais uma etapa em nossas vidas.